Fraudou o TCC (artigo ou monografia) e agora? por Tcharlye Guedes Ferreira

Fraudou o TCC (artigo ou monografia) e agora?

É interessante como ao final da graduação, mais especificamente no curso de Direito, ficamos meio desnorteados, com a vista turva em meio a um turbilhão de informações e solicitações dos professores quando o assunto é Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), alguns voltados para o modelo de artigo científico, outros monografia.

Existem atualmente diversas faculdades que não mais solicitam em sua grade um trabalho de tamanha grandeza, e outras instituições de ensino superior o qual não abrem mão, tampouco aliviam para os discentes, fazendo assim a separação de profissionais desde a graduação. Explico. Imagine um acadêmico de Direito que não teve a obrigação satisfação, de externar seus conhecimentos, de evidenciar seus anseios frente aos diversos impasses causados no universo do Direito, se veja obrigado a discorrer sobre algum tema em dada entrevista, ou até mesmo contrarrazoar, digladiar, combater de forma limpa e sagaz o seu algoz. Algoz este que, aguarda com paciência britânica o seu deslize, a besteira dita ou algo que não foi respaldado. Não se trata aqui de tipificar os acadêmicos que não ostentam com orgulho seu Trabalho de Conclusão de Curso, tampouco causar uma percepção errônea, mas tão somente entender como “as coisas funcionam”. Pois bem, agora se tem presente outro acadêmico com uma formação intelectual sólida e boas argumentações em determinado assunto defendido pelo mesmo, em sua apresentação do artigo científico ou monografia. Haverá sim uma clara dicotomia entre ambos, mas isso não é fator determinante, repito, nem mesmo avaliativo, mas apenas que este logrará êxito em face daquele em assuntos específicos ora defendidos em banca avaliadora.

Agora que visualizamos brevemente o cenário da aplicação no cotidiano, quero trazer o que realmente acontece, quase que semestralmente, na maioria das faculdades que exigem em sua conclusão de curso o tal artigo científico ou monografia.

Neste semestre me propus a ajudar alguns formandos em seu TCC, todos voltados para o modelo de artigo científico, e quando se fala em artigo científico, fala-se também em pesquisa séria, muitas vezes ir a campo se faz necessário, trazer dados concretos e relevantes, pesquisados exaustivamente até que sua conclusão seja realmente pertinente ao mundo jurídico o qual se propõe ingressar.

Pois bem, diversos alunos foram me procurar, já que, ajuda é ajuda, e não se contesta quando se fala em conclusão de curso, além do mais, passados cinco anos de faculdade, já não se tem a mesma garra do início.

Meu discurso era sempre o mesmo: “- Você escreve, eu leio e dou as dicas das alterações pertinentes, depois sentamos e discutimos sobre doutrina, jurisprudência e ABNT”. Mas o que realmente aconteceu foi outra coisa, para minha surpresa, a grande maioria tinha enorme problema com a língua falada, o português do Brasil, e escrever sem dominar o vocábulo “juridiquêz”, ora lecionado arduamente pelos mestres durante os cinco anos, havia se tornado uma missão impossível, coisa que só ninja podia fazer! Então decidi não adotar todos àqueles que me procuraram para a ajuda, pois eles não queriam ajuda, mas alguém que fizesse o trabalho deles.

Com o passar dos dias, se espalhou a notícia que eu não mais aceitava alunos para o grupo específico de estudos direcionado, todavia, fiquei com nove pessoas mais comprometidas com o estudo, muito embora aquela frase célebre me fizesse mais sentido agora do nunca o fizera antes: “- O Brasil tem milhões de alunos e pouquíssimos estudantes”.

Muito embora não mais aceitasse alunos para orientação, foram contínuos os pedidos para que eu “olhasse” o TCC deles, e para minha surpresa percebi uma prática muito comum e que em grande maioria obtêm sucesso nas bancas examinadoras, a “sinonimização” dos termos. Há, por parte dos acadêmicos mais relapsos, uma troca compulsória dos termos, frases, significados dentre outros erros, de artigos científicos de outros acadêmicos, fazendo não somente um plágio descarado como também a perda do real sentido daquele projeto e posterior desmerecimento do pesquisador que desenvolveu o trabalho originário. É realmente uma mazela de proporções imensuráveis, empregar esforços “sinonimando” o trabalho alheio, trocando posições, palavras, frases, e sem mencionar o famoso Control+C e Control+V que a informática utiliza como facilitador de edição de textos.

Ainda lembro-me dos saudosos vendedores de enciclopédia que batiam de porta em porta ofertando suas coleções, com pagamento facilitado. Era uma forma de promover aprendizado sólido e constante para os filhos menores. Ainda mantenho as publicações adquiridas pelo meu pai, porém esta prática fora engolida pela modernidade, transformando o conhecimento físico em virtual, popularizando e promovendo o alcance ao conhecimento. Mas até onde isso ajuda aos plagiadores de plantão? Até onde essa tal facilidade usada como atalho é lícita? A seguinte indagação então faria sentido neste momento, “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém – Emmanuel”. Enfim, os livros da bibliografia dos TCCs ainda são solicitados, base sólida de doutrina e busca em jurisprudência para embasar decisões e entendimentos diversos.

Então, sabemos que escrever não é tarefa fácil, principalmente em se tratando de prática que precisa ser adquirida desde novo, conjuntamente com a leitura, mas para dar uma luz ao pesquisador que está às voltas de escrever um Trabalho de Conclusão de Curso, eis que se precisa ter em mente que além de criar sua identidade ao escrever, poderá abrir portas, o qual não se imaginava, ter a possibilidade de ajudar conciliadores ou litigantes com sua obra, servir de norte a julgadores e doutrinadores, enfim, uma infinidade de possibilidades.

Comece pelo começo, isso significa tão simplesmente ler doutrinadores, inspire-se e assim verá que é mais fácil escrever do que parece. Ir a campo e descobrir o funcionamento da engrenagem ajuda muito no desenvolvimento textual. Tudo que é grande precisa de um começo que muitas vezes se inicia bem pequeno, então não busque apoio com os amigos mais avançados, não nesta fase de autoconhecimento, procure seu jeito, cria sua identidade começando com esboços, faça seu método, compare entendimentos divergentes e aprofunde-se na reflexão de cada doutrinador. Seja crítico o bastante para melhorar com uma visão moderna e ampla, sem ferir com suas palavras, sem a aspereza dos pensamentos. Externe suas ideias, mesmo sem o “juridiquês” ao qual falei anteriormente, e quando surgir dúvidas procure o mestre na faculdade, haverá sempre alguém disponível para ler e ajudar a adaptar seu texto.

Não há fraude infalível, não há crime perfeito, todo criador saberá identificar sua obra, ainda que largamente deformada, e você assim que terminar as vinte e poucas laudas do trabalho, saberá se é ou não sua pesquisa. Mas caso ainda encontre desculpas para fraudar orientar-se em outro trabalho científico, saiba que é um risco eterno que o perseguirá, risco de ter seu nome subjugado e açoitado com o rigor que merece o fato, ainda que tenha plagiado “apenas” um único parágrafo.

Finalmente, mas não menos importante, não pague para os mais “espertos” pelo TCC pronto que sairia de graça para você. Seu Trabalho de Conclusão de Curso poderá se transformar em um tumor generalizado se você comprar um trabalho de prateleiras no mercado paralelo, haja vista a banca examinadora que, havendo algum professor que o reconheça, irá indagar e questionar pontos que certamente você não domina, já que não foi você que escreveu. A consequência é a reprovação, e vai além, espalha-se como pólvora acesa que você fora reprovado por plágio e, é incapaz de ao menos fazer um TCC. Sabe como é… as notícias ruins correm rápido e não se apagam com facilidade. Lembre-se que não sabemos o dia de amanhã, e quem sabe você se tornará um Ministro do Supremo Tribunal Federal, com um passado frágil e duvidoso, o qual lhe colocará sempre este peso sobre seus ombros.

Pagou pelo Trabalho pronto e passou pela banca, escrevendo seu nome na lista dos aprovados? Sinto em não dar os parabéns, aliás, não faz sentido você continuar lendo artigos do mundo jurídico se não teve a coragem de manter-se íntegro e tentar com mais afinco. Mas nem tudo está perdido! Ainda dá tempo de iniciar, uma nova etapa, e nesta nova fase, inicie lendo seus doutrinadores favoritos, eles são fontes de luz eterna, depois faça esboços, pequenas resenhas e quem sabe, logo assumirá sua posição como gigante que nasceu para abrilhantar o nosso Universo jurídico, de forma lícita!

É isso.