Quando o advogado teme o estagiário: O início de tudo!

Tcharlye Guedes é Advogado e CEO do Veredictum

Há pouco tempo atrás, estive conversando com um professor de Direito, ainda na graduação, sobre as funções que o estagiário de Direito deveria exercer enquanto prestador de serviços e aprendiz da tão nobre profissão. Após estendermos a conversa, abordando o tema com posições contrárias e até mesmo em concordância de certos aspectos, concordamos em um ponto: “Quando o advogado teme o estagiário, então será o início de tudo!”.

É um assunto controverso, sei disso, mas trata-se tão somente de dedicar-se ao estudo e aprofundar-se cada vez mais em um tema específico, a ponto de se tornar uma referência no assunto, ser a pessoa mais indicada para se discutir e permitir-se aprender com os conhecimentos advindos desta pessoa. É neste ponto onde a linha tênue que separa o advogado do estagiário dedicado se encontrará, ou se confrontará, fazendo em um instante a famosa “primeira boa impressão” ou espantando de vez o advogado entrevistador.

Bem, nesta conversa informal, o professor havia me confessado que em um dado momento de sua vida acadêmica, com todo seu envolvimento nos assuntos jurídicos, periódicos e afins da faculdade, se candidatou a uma vaga de estágio em um renomado escritório na cidade de São Paulo. O escritório era famoso por ser detentor de grande banca na cidade, e que concorria com outros grandes escritórios do Brasil e da América Latina. Havia ao menos quatrocentos advogados e uma centena de estagiários. “-O escritório era uma cidade vertical!” – afirmava o professor.

Enviou seu Alumni curriculum vitae pelos correios, e para sua surpresa, recebeu o telefonema ainda naquela semana, com o agendamento da primeira fase do processo seletivo, que para seu espanto havia um processo seletivo para estagiar.

Era tudo novo para ele, o estágio, o tal processo seletivo e ainda o terno que comprou para se apresentar nesta primeira fase, exigência do escritório.

Foram feitos todos os tipos de teste, segundo o professor, desde teste de escrita, tipos de letra, raciocínio lógico e ilógico e até uma dissertação com três mil caracteres! “-Foi um terror!” indaga o professor saudoso daquela época.

Passou pela primeira fase, segunda fase e já na fase final, inclusive daquela semana, recebeu a notícia de que teria sido aprovado, para a entrevista. A tal entrevista lhe deixou um pouco inseguro, pois como era um estudante muito aplicado, sempre avançava além das aulas e procurava se aprofundar em cada assunto que lhe era apresentado. Sentia que isto em algum momento poderia lhe atrapalhar na contratação para o estágio acadêmico.

No dia da entrevista, para sua surpresa, havia nove outros candidatos aguardando em uma sala, todos enfileirados, um ao lado do outro.

Entraram na sala cinco advogados e se colocaram na frente dos candidatos e começaram o questionamento. Eram todos muitos incisivos em suas perguntas, queriam saber sobre o dia a dia do candidato, das habilidades adquiridas em outros estágios, se falavam outro idioma, se possuíam veículo e principalmente, se já haviam se registrado na OAB para assim fazer as diligências necessárias.

O professor ficou apavorado, pois não questionaram sobre suas notas, suas atividades na faculdade, ou grupo de pesquisa. Não queriam saber sobre o núcleo de prática jurídica, simulados ou qualquer outra atividade que a faculdade promovia para seu aprendizado e crescimento. Porém, em um dado momento, um dos advogados questionou o tema de sua dissertação, que tratava do Direito Tributário com uma maior abrangência e certa profundidade, pois era apenas uma lauda.

Todos se voltaram para o candidato e começaram a lhe questionar, cada vez mais e mais. Parecia que nunca iria acabar, sempre querendo saber como, onde e por que ele havia chegado a tal entendimento com a dissertação. O professor abriu seus conhecimentos, poucos, porém certeiros, e a cada indagação dos advogados uma cara diferente.

O professor não conseguiu a vaga de estágio naquele dia e nem naquela firma advocatícia tradicional de São Paulo, pelo simples motivo: Era uma possível ameaça, disfarçado de “não é o perfil procurado”.

Não se trata de esconder ou omitir informações sobre sua carreira brilhante o qual você constrói com tanto esmero e suor, ou se fazer de “coitado” para poder dar um passo a frente, mas trata-se de espantar os que por falta de conhecimento total do assunto ou certeza da trajetória de sua carreira, aparta de sua vida uma possível ameaça concorrencial.

O professor me confessou que anos mais tarde encontrou com um ex-associado daquele escritório e que este lhe revelou algumas conversas de bastidor. Para sua surpresa, não fora escolhido, pois, tinha perfil de advogado e não de estagiário, já que estagiário não era contratado para pensar, somar e melhorar, apenas para “viabilizar” a carga de processos no fórum e justiças daquela cidade.

Certamente é frustrante para os alunos de Direito com vocação para serem advogados brilhantes, mas infelizmente não conseguirá uma vaga de estágio falando tudo que conquistou e as possibilidades de ajudar o escritório em seu crescimento se for contratado. O fato é que o exemplo deste professor acontece todos os dias com uma parte dos “notáveis” que as faculdades estão lançando no mercado, acirrando ainda mais a procura.

Há certamente uma balança na carreira do estagiário, de um lado o mercado da oferta e procura, causando o Dumping Social ao estudante, e de outro lado, o profissionalismo e segurança do advogado ao buscar uma pessoa que o auxilie, que o complete, que o ajude a crescer e certamente a aprender coisas novas que seu novo pupilo traz.

O que se tem visto em anúncios e pedidos de estagiários é que a palavra “diferencial” tem se tornado cada vez mais frequente nestas postagens. Trata-se de procurar uma pessoa que não poderia apresentar seus conhecimentos, mas que teria que ter tais conhecimentos antemão. Para se entender melhor, haveria uma oferta de estágio para a justiça do trabalho, todavia uma segunda língua seria um diferencial, ter veículo próprio para carregar processos seria um diferencial, disponibilidade para estagiar das 08 às 18 seria um diferencial, e assim por diante. O diferencial é em sua maioria propostas esdrúxulas, descabidas e sem noção.

Isso também não significa que todos os advogados e seus escritórios tomem esta postura, mas trata-se tão somente dos profissionais sem segurança em si e no seu trabalho.

No momento em que o candidato é recusado pelo escritório advindo da insegurança daqueles profissionais, é que se abre a grande oportunidade de sua vida, e oportunidades como esta não se deixam escapulir entre os dedos!

O que se pode perceber é que o estagiário fora certificado como um concorrente em potencial para aquela área específica, e o advogado sem a percepção ou segurança mínima fez todo o trabalho de orientar o futuro operador do Direito. Trata-se de efeito cascata, pura e simples, quando se percebe um talento diante de si é hora de agarrá-lo e construir ali um profissional que poderá se tornar o precursor do sucesso do escritório ou, deixar escapulir para mais adiante ver uma possível referência jurídica tomando o mercado.

Eis o início de uma carreira brilhante! A recusa em um escritório de advocacia para estagiar lhe dará condições de investir na área em questão, de investir em si mesmo, de crescer e dominar uma temática específica e poder se tornar uma referência no assunto, e para isso haverá a necessidade de preparar este caminho. O estágio com certeza lhe daria muito conhecimento prático, que não se compara com a estrutura de atendimento que algumas faculdades propiciam aos seus discentes em núcleos de prática, todavia não se pode deixar penalizar ou esmorecer pela recusa, incompatibilidade de perfil ou o não reconhecimento. Este caminho trata-se de seguir algumas regras básicas, e a primeira delas é a escolha. Faça a escolha do ramo do Direito com calma e amplitude de visão. Veja onde atualmente está sendo aplicado o ramo escolhido, veja suas decisões e jurisprudências diversas, leia julgados, intere-se, faça parte, apaixone-se.

Todas as matérias são importantes, mesmo as matérias que aparentemente não se conectam, mas acredite, todas se comunicam, ainda que sutilmente. Então o segundo passo é sem dúvidas procurar pessoas que corroboram com o mesmo sentimento do ramo escolhido. Não há nada melhor do que falar de algo que gostamos com outro apaixonado pelo mesmo tema. Nossos professores são, em sua maioria, apaixonados por um ramo específico, e mesmo tão ocupados, são fontes inesgotáveis de conhecimento. O compartilhamento causa afinidades, afinidades causam network e network é sem dúvidas a porta para o crescimento, crescimento sem temor e com respeito. E quando você crescer, certamente necessitará de um estagiário que o complete, que o ajude a crescer ainda mais e que alcance outras áreas que antes não era possível.

Tcharlye Guedes Ferreira O ciclo é o mais belo nesta profissão de corajosos, pular alguma etapa, excluir alguma matéria, estudar apenas para passar, poderá comprometer o sucesso do profissional ou até algo mais grave, lhe tornar um covarde na hora de confrontar um talento.

Muitas vezes em entrevistas o candidato ao estágio está diante de um talento, diante de uma pessoa brilhante em suas indagações e afirmações, com embasamento jurídico sólido, e certamente saberá encontrar outro talento, por este motivo ainda há tempo para você se preparar para reconhecer um talento quando o encontrar.

Não omita seu percurso, por mais fantástico que seja, por mais longe que tenhas ido, não deixe que o perfil de outros seja maior que o seu, não absorva o medo alheio, a insegurança, a insensatez, não ceda ao cansaço, e quando achar que já sabes de tudo lembre-se, amanhã é um novo dia com coisas novas.

Tcharlye Guedes Ferreira é Administrador de Empresas, Bacharel em Direito, articulista jurídico com quase 2 mil artigos editados, consultor em negócios internacionais, pesquisador pela Universidade Salgado de Oliveira, Intern em prática jurídica.

É isso.